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DESIERARQUIAS 

LINGUÍSTICAS

por iris De franco   |   julho 2021

 

Perante mensagem de uma professora de português que tem circulado nas redes, posiciono-me. Algumas pessoas estão reticentes com as atuais propostas de alterações da língua portuguesa: amig@, amigx, amigue, dúvidas de todo tipo têm surgido na tentativa de reconstruí-la de forma a ser mais inclusiva. Muitas/es/os não compreendem que a pauta não diz respeito somente ao gênero das palavras, mas sim sobre as relações de poder do patriarcado capitalista e às artimanhas do sistema para invisibilizar, silenciar, oprimir e subjugar a mulher e seres não-bináries. Saliento aqui a importância da transformação da língua também nas lutas decoloniais, ético-sócio-raciais e de classes, e ainda em um artifício imprescindível na tentativa de desierarquização da dança.

 

Palavras e expressões como “denegrir”, “dia de branco”, criado-mudo”, “está claro”, “coisa de preto” são gritantemente racistas e de uma herança colonial, porém operam como vocabulário ainda corrente no século XXI. Também termos que podem ser extremamente pejorativos, como: “mulherzinha”, viadagem”, “coisa de veado”, “gay afetada/e/o”, “tá de TPM”, “bruxa”, “puta” são xingamentos usuais na pós-modernidade. Observem como a língua difunde o preconceito e perpetua as relações de poder, trazendo mensagens que ficam no inconsciente de um povo e são transmitidas de geração a geração.

 

Eu não me sinto representada quando escrevem: "o ser humano", pois me sinto "a ser humana". Quando leio: “vagas para professores”, a primeira sensação é do trabalho não ser para mim. E não é mesmo, eu vou ser mais cobrada e menos remunerada do que um homem em qualquer função que desempenhar. Fica no inconsciente da mulher e do ser não-binárie que o mundo não é para elas/eles. Debaixo de nossos poros está registrado o sentimento de “eu não consigo”, “eu não posso”, “não sou capaz”. Frases como: "o homem pode mudar o mundo, fazer isso e não fazer aquilo”,  incutem impotência e desvalor em outros gêneros que não sejam do "masculino". Vozes silenciadas, corpos invisíveis, seres inexistentes que são massacradas/es e confinadas/es à marginalidade.

 

A língua é uma construção cultural em constante transformação, assim como o gênero e, a hierarquia dentro dele é tão intrincada na língua portuguesa e na cultura brasileira quanto o racismo. A herança judaico-cristã e o colonialismo que se imprime também na língua, oprime ancestralidades não-eurocêntricas. As mesas de cabeceira contam os livros lidos, os deixados de lado, bem como escutam sonhos, desejos e dores. Plurais no gênero masculino não são nada plurais. “Só oz pipoco depois do Rango” é tão língua portuguesa quanto “Sons estalados levaram a alma dos corpos após a santa refeição”.

 

Vai demorar, talvez, até uma forma mais inclusiva de língua ser encontrada, mas este movimento de busca acontece também em outros países, por exemplo, que falam espanhol. O “x” e o “@” já foram desaconselhados em seu uso, por conta de serem impronunciáveis, contudo são menos excludentes que o masculino. Colocar na palavra três possibilidades de gênero não inclui todas/es/os, mas parece, por enquanto, a melhor opção.

 

Discorrendo sobre dança a dois que é meu assunto: não adianta falar “condutor e conduzido” com “o” no final, nem “o intérprete” e “o proponente”. Eu tenho usado tudo feminino, mas talvez  “e intérprete” e “e proponente” seja um jeito “menos pior” e uma solução momentânea nesta fase de transição. E é óbvio que só mudar o jeito de falar e achar que está revolucionando o rolê, não resolve o problema, tá minha pova? Não adianta usar “condutora e conduzida”, nem “condutore e conduzide”, e continuar replicando a mesma fórmula dançística opressora que objetifica, desvaloriza e poda mulheres. A língua é apenas o início de uma revolução que passa pela valorização da/e/o intérprete e das professoras, e que coloca em cheque o “lady style” direcionando a/e/o dançante para sua essência e não para a expressão estereotipada de gênero; processo este que transita pela comunicação horizontal, pela estética e discurso na dança. Neste texto aqui, vou ficar focada no ponto “língua” enquanto ferramenta imprescindível de transformação social.

 

“A língua é uma arma”, adoro este ditado e eu, que por muitos anos estive calada, abro aqui esta sessão chamada: DesemBuxa! Para dialogar com vocês pontos que por vezes parecem batidos, porém discorrer sobre eles, ainda se faz urgente.

 

Por isso, se possível, eu não quero deixar meus sonhos para as mesas de cabeceira. A/e/o ser humana/e/o reflete, sente, aprende e muda o mundo quando traz do inconsciente seus questionamentos, ideias, dores, vontades. O início de um ciclo de transformações inevitáveis está em curso, a vida flui rápida como a luz, mais iluminada de iluminismos que eu gostaria, contudo se abre à horizontalidades também linguísticas. Afinal de contas, “vc, cê e c”, vem de “você”, que é abreviação de “vancê”, nascido de “vosmecê” e assim por diante...e o sotaque brasileiro e o pronome citado têm sido alvos de preconceito direcionado a imigrantes em alguns países da Europa como Portugal, onde a branquitude diplomada de nariz ao alto tem se descoberto mestiça, colonizada e tupiniquim. 

 

A língua diz muito sobre a cultura de um povo, visto isso, acho imprescindível e inevitável refletir sobre ela como aliada no processo de descolonização, desierarquização, “descapitalização” de corpos, mentes, gêneros e vidas.

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