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ENTRE PÓDIOS 

E LARGADAS

por iris De franco   |   julho 2021

Eu sou lenta e gosto de silêncio. No silêncio posso olhar para dentro de mim e ser mais inteira, lá escuto músicas novas e me escuto. Antecipo futuros quando páro, mas presentes me atropelam, sou atrapalhada com os tempos. Bebo nas raízes, mas gosto de processos e experiências, não faço questão de fins e por isso, tenho vários projetos inacabados. Este modo slow e não utilitário é também uma maneira de protestar contra o sistemão, porque eu não me enquadro em fazer todos os dias as mesmas coisas, nem assumo a promessa de postar com frequência conteúdo para meus seguidores, sou artista e respeito meus ciclos, por isso, atrasei um mês e meio esta matéria e tudo bem se você se desinteressar em ler, achar a notícia velha ou até se você sentir que a velha sou eu, meu compromisso aqui é ser autêntica, ser eu mesma. Assim, segue a matéria gasta para você ler se sentir que o âmago foi tocado por questões capitalistas relacionadas à produtividade...

 

Os dias mais escuros deste desafiador inverno de 2021, fizeram-me recordar a infância sanroquense. Escuridão que foi salpicada por tintas vibrantes quando torci pelas brasileiras nas Olimpíadas de Tóquio. “Xerecou o campeonato” foi um pombo-correio pro meu coração: “o resultado do nosso trabalho tá vindo!”, senti. Acompanhei principalmente as ginastas artísticas, trajetória e esporte que marcou minha infância. A linda apresentação da Flávia na trave dia 25 de julho e a traição do seu pé no solo, a tristeza de ver a desistência dela da prova geral e a felicidade pelo seu sétimo lugar. As conquistas de Rebeca, negra, com poucos recursos, dando continuidade ao legado de Daiane com brilhos e medalhas, superando recordes. É ver que a luta vai passando para as próximas gerações e que as mulheres, e sobretudo as mulheres negras periféricas, estão devagarinho alcançando lugares de poder.

 

O pódio é venerado no mundo ocidental da competição e ele omite os processos preciosos da vida e valida as relações de poder do patriarcado. Por este e outros motivos, eu, sobretudo, senti-me aliviada com a desistência surpresa e madura da ginasta Simone Biles, pois nela me reconheci humana. É interessante como um ato que aos olhos da sociedade poderia ser taxado de fraqueza, me trouxe esperança e coragem. Coragem para desistir, assumir minha impotência diante desta pandemia infinita, diante da vida. Olhar para dentro e reconhecer os próprios limites é um ato a favor da vida. A alma precisa estar em paz para a essência brilhar. Dizer “não” ao mundo e “sim” ao chamado interno é uma sabedoria rara em nosso mundo e um ato heróico de muita coragem.

 

Entre 1985 e 1992, fui ginasta artística, competindo pela cidade de São Roque - GUS e pelo Centro Olímpico de São Paulo - COTP. Conquistei medalhas nos regionais e estaduais, contudo, o que ficou da ginástica não foram elas. A realização trazida pela dança dos solos que possibilitou expressar minha essência criativa; a persistência do processo de aprendizagem das séries da ginástica e a coragem para executar movimentos que poderiam me tirar a vida,  foram os aspectos que marcaram meu ser. Na ginástica, percebi o quanto a dança era essencial para mim, estava na lá por ela. Eu era uma criança muito prudente, criativa e totalmente artista, não me sentia servindo para ser ginasta. Odiava competir e fazer acrobacias que colocavam em risco minha vida e saúde física e me sentia cagona e fraca demais para o esporte. Com 13 anos de idade, comecei a entender mais meu jeito, desisti da ginástica, e essa negativa me abriu portas para começar a dançar…

 

Dos 13 para cá, parei a vida algumas vezes por covardia, outras por coragem. Após um ano e meio de pandemia, estou de fato exausta, quero gritar: “não aguento mais estar sem dançar”. Dançar é meu ganha-pão, minha diversão, minha expressão. O Forró é meu espaço social, terapêutico, político, meu lugar de pesquisa e é onde eu falo. Ficar sem Forró, dói muito. Mas dói mais assumir que não me adaptei totalmente às aulas online, às vídeo-aulas, nem a dançar de um, assumir que aprendi um monte de coisas novas em 2020, mas fica a sensação de que nada deu certo porque faltou aquele abraço caloroso do baile ou a conclusão de processos. Ficou a sensação de que em um ano envelheci uma década, pois não houveram pódios de chegada, somente pontos cegos de partida.

 

Não dançar parece um não sair do lugar, um não viver, um estado de zumbi. Mas alguns períodos são de Perséfone, e caminhamos sem olhos, sem tato, sem cheiro, sem paladar e sem saber se iremos voltar a enxergar ou mesmo a respirar. E eu continuo cautelosa e não vou voltar a dar aulas presenciais agora, mais gente precisa se vacinar e tomar a segunda dose, a variante delta está aí e vejo uma atitude muito egoísta da comunidade forrozeira, o pessoal se acabando em bailes, sem máscaras, sem consciência social, sem preocupação com nossas crianças.

 

Voltando ao esporte, contemplar a ginástica me fez refletir sobre esta guerra pandêmica e a situação política e social de hoje. Às vezes as grandes lutas são suportar meses, anos, em silêncio, e falar na hora certa e as maiores guerras são aquelas que vencemos com o coração, com a sabedoria e com a paz. Saliento o quanto nossa sociedade valoriza a ação, a medalha, a fala, a guerra, o falo. Contudo as grandes danças podem ser aquelas nas quais ficamos imóveis, e, as grandes conquistas, podem ser manter um corpo, uma mente e uma alma saudáveis. Escrever tem sido um alívio, meditar um remédio. Inspiração através dos “sins” e “nãos” destas jovens ginastas e reiterar meu “NÃO” às redes e meus limites, um ato heróico.

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