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por iris De franco   |   outubro 2023

      O Forró apesar de replicar o machismo, o racismo, o etarismo, a lbtfobia arraigados na nossa sociedade, é um dos ambientes mais inclusivos que conheço no mundo, onde pessoas de classes e raças diferentes se misturam e confraternizam numa boa, baixando a guarda para as convenções sociais. Minhas alunas do Mulheres que Conduzem reclamam muito do ambiente do Sertanejo ser mais machista que o Forró, por exemplo, e em 2020, dei uma entrevista para o grupo bahiano de Dança de Salão, Dois em Um, e Jocélia Freire uma das integrantes do coletivo, foi muito enfática em dizer que estava deslumbrada com tanto movimento feminista dentro do Forró.

 

      Temos muito para caminhar no sentido da equidade de gênero, racial e de livre expressão sexual, mas hoje o circuito de Forró Urbano é um exemplo de ambiente onde as reflexões e atitudes feministas, anti racistas e antilgbtfóbicas frutificam. Notemos que um músico, um dançarino e um influencer famoso foram cancelados da comunidade forrozeira por assédio ou por postarem conteúdos que sexualizam o Forró. Olhemos para os inúmeros coletivos forrozeiros feministas no Brasil: Mulheres que Conduzem, Mulheres Condutoras em SP, Itacaré, Itaúnas, Forró das Bonita, Casa das Frô, Segundo Forró, Forró Delas, Forró de Dama, Forró das Minas, são apenas alguns e ainda o Forró LGBT, Canto das Cores no Canto da Ema, levantando a bandeira do arco-íris. Basta a gente frequentar o Forró dos Ratos e o Baile dos Ratos em SP para ver que o Forró é preto, vermelho, amarelo, branco e de todas as cores. Mas como em todo canto do mundo, o machismo e racismo ainda se fazem presentes, os hetero tops podem ser encontrados também por lá. 

 

      É um desfavor ao Forró todos os posts, textos, vídeos e aulas que colocam foco na galinhagem e pegação, porque o Forró essencialmente é um ambiente de encontro amigável e familiar. E sim, como em qualquer outro local lá também vamos encontrar heterotops, homens que iludem mulheres, galinhas, sedutores inveterados, assediadores e mulheres que estão cegas ao que acontece e replicam o machismo. Mas essa não é a atitude que predomina nos espaços do Forró Urbano, até porque a mulherada no Forró geralmente se impõe, não tá tendo boi pra boy não. Eles estão sendo largados na pista dançando sozinhos, sendo estigmatizados e banidos do Forró.

 

      Não sou moralista, acredito na liberdade sexual e na diversidade de possíveis caminhos para a vivência da sexualidade. Já tive minhas fases celibatárias, as fases de transar com muitas pessoas na mesma semana ou ao mesmo tempo, os momentos de estar vivendo a sexualidade sozinha comigo mesma, os de estar namorando ou casada e experimentei diversos formatos de relacionamento. Sei que no Forró como em qualquer outro ambiente, uma dança pode virar um flerte e tá tudo bem se isso for consentido entre as partes envolvidas e se acontecer de forma respeitosa.

 

      Mas eu repudio qualquer pessoa, site, atitude ou post que dê ibope para o Forró como como ambiente de pegação. O circuito do Forró Urbano propicia um ambiente familiar, de encontro, para relaxar com mais segurança que outros locais. Pegação pode acontecer talvez e às vezes, mas não é uma regra geral. No Forró Urbano todo mundo troca de par e o objetivo maior da festa é dançar, abraçar, encontrar as pessoas amigas, fazer novas amizades, fazer a arte e a cultura do Forró se perpetuar. O Forró Urbano é uma grande comunidade mundial que se ajuda mutuamente, é só prestarmos atenção, por exemplo, nas iniciativas por aí, os Forrós beneficentes, eu tive o prazer de participar de alguns: a LIVE para a operação do joelho do Robson em 2020, Forró do Abraço, e vale notarmos também os couchsurfings que o Forró nos proporciona em casa de desconhecidas/es/os pelo mundo com segurança.

 

      Portanto acho que é dever de toda, tode e todo forrozeira/e/o rechaçar, denunciar ou cancelar qualquer iniciativa que sublinhe galinhagens, heterotops, donjuans, esquerdo-machos e pegação e também é dever de toda/e/o forrozeiro divulgar projetos, escolas e ambientes seguros e inclusivos, onde o Forró se perpetua de maneira saudável, e onde o diálogo e a inclusão têm acontecido mesmo que a passos lentos, onde os movimentos feministas e lgbts têm transformado não só as pistas e escolas de Forró como também a sociedade como um todo, denunciando assédios, ensinando Forró com uma visão decolonial e feminista, invertendo a condução e a lógica social, auxiliando no empoderamento de mulheres e abrindo espaço para que a heteronormatividade caia por terra dentro e fora das pistas. O Forró é um poderoso ambiente de harmonização social, bora usá-lo para uma revolução positiva das pessoas e da sociedade. 

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